Cristina Ataide

(im)permanências # 13, conjunto (im)permanências, 2008
Impressão a jacto de tinta s/papel  fotográfico Epson e colado sobre alumínio
160 X 100 cm | Ed. 1/2
vendida

(im)permanências # 17,  conjunto (im)permanências, 2008
Impressão a jacto de tinta s/papel  fotográfico Epson e colado sobre alumínio
160 X 100 cm | Ed. 1/2
vendida

Sobre as peças | Visão da infância, o mar é, em primeiro lugar, maresia e jogo dos golfinhos, os mensageiros benévolos das profundezas que os antigos tanto amavam. Da rosa das conchas solta-se um murmúrio que a criança leva ao ouvido: augúrios do tremendo magma. Nas vilas de pescadores a criança estranha ao lugar, de passagem, surpreendia naqueles homens e mulheres descalços uma febre ígnea, o olhar deles estava posto nos longes, corria sem se deter em nenhum rosto, cego a qualquer outro sinal. Febre que conhecia os despojos do sal, a avidez do monstro que habita nos labirintos nacarados, do animal inquietante que irrompe da sua imensa concha, que respondia ao seu apelo eterno. Com a pele gasta, curtida, tisnada pelos ventos ágeis, pelo ouro do céu, eles moviam-se ensombrados pelo perigo de morte, pela entrega dos seus corpos, chamamento constante do mar, o destino deles, e que ressoa nas palavras puras do Romance da Nau Catrineta. Não há prolongamento do nosso corpo mais afeiçoado ao mar do que o barco Herói que resiste às vagas e se faz transportar por elas, embalado pelas marés, o barco ergue-se na espessura das ondas, obedecendo ao furor das águas e dos ventos, o barco tem sede dos fundos acobreados do abismo ardente, dos meteoros raros que prendem as suas marés, numa antevisão das águas que não se misturam. Mas, em terra, ele assemelha-se a um fóssil morto de um vivo, mesmo que o seu esqueleto, o cavername, esteja parcialmente intacto, todas as suas funções ficam oclusas, e o sal depositado, origem de tanto brilho irisado, embacia e devora as suas cores. Onde estará a divindade que fora colocada na proa do barco para o proteger do naufrágio? Foi dar à praia, desfigurada, o mar vazou-a, o mar entrega-a, resplandecente de sal como todo os enviados do mar inesgotável. Privada da linha de água, também as obras mortas e as obras vivas desta barca não podem despertar, o que está imerso e o que está emerso tornou-se indiscernível. A desmedida das águas é uma lembrança longínqua. Por meio de gestos secretos evoca-se o mistério da navegação, limpa-se o seu cavername à procura de um conceito de interior, o vazio desejado pela imaginação faz alastrar uma mancha vermelha à procura do sal puro, do sal que morde a boca, cuja saliva tinge a pele, e que se incrusta, precioso, nos ossos dos náufragos. Desde o Antigo Egipto, que as almas dos mortos são transportadas por uma barca. Mas ainda antes do Egipto e do seu Livro dos Mortos, o príncipe Gilgames embarcou numa delas na sua viagem à procura da imortalidade, e, depois de ter perdido a esperança de viver para sempre, na viagem de regresso à sua cidade natal, aceitou essa perda, convertendo a sua própria mortalidade em narrativa maravilhosa que todos pudessem ler. A barca de Gilgames é ainda a que transporta os vivos (texto de Maria Filomena Molde).

Cristina Ataide| Nasceu em Viseu. Vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Escultura pela ESBAL. Foi diretora de produção de Escultura e Design da Madein, Alenquer de 1987 a 1996. Bolseira da F.L.A.D., Fundação Oriente, Subsídio Projectos Especiais, SEC e bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Representações: Coleção do CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, Caixa Geral de Depósitos, Lisboa, Coleção PLMJ, Lisboa. Coleção António Cachola, Elvas. BES, Casa da Cerca, Almada, Unión Fenosa, A Coruña, Espanha, Grupo Bensaúde, Lisboa. Exposições: Expõe individual e em grupo desde 1983 em Portugal e no estrangeiro. Expõe atualmente La Montaña Magica / Der Zauberberg na Galeria Magda Bellotti, Madrid e em Julho vai expor no Mosteiro de S. Bento em S: Paulo, Brasil. www.cristinataide.com

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